domingo, setembro 25, 2005

Segredo



Adorava chegar e ter aquele olhar indolente, que a despia a cada momento.

Não se cansava de sentir a maneira como o sorriso dele se ía esboçando à medida que se libertava de cada peça de roupa.

Ficar nua, despida, perante ele era, já de si um extâse...

... mas, um mero prefácio para o momento que os dois sabiam se seguiria.

Aquele em que nada mais existia senão o corpo do outro, o movimento do outro, a respiração ofegante, o murmúrio de ambos, o afago da alma, o segredo... o segredo...

... o segredo de quem encontra a felicidade por segundos.

domingo, setembro 18, 2005

Sentires


De costas se amavam.
O corpo de um e de outro unia-se de todas as formas possíveis.
Amam-se tanto que a necessidade de se sentirem se torna uma necessidade constanste.
E, de cada vez, em cada gesto, em cada palavra, em cada silêncio, são um só.
O tempo pára para eles. Por eles.
E dominam, assim, o mundo.

domingo, setembro 11, 2005

Reencontro

Era aparentemente forte.
Perante ele, porém, todas as máscaras se desfaziam como que por magia. A fragilidade dela assim revelada, escancarada, atemorizava-o, talvez.
Mas o que sentia, fosse amor para os que nele acreditam ou qualquer outra coisa para os que negam a sua existência, só podia ser incondicional.
Aceitavam-se um ao outro como eram. Genuínos. E carregados de defeitos.

Porém... temia algo. Sentia-o estranho.

E foi com esse temor, com essa estranheza, com aquela fragilidade e com todos os seus defeitos que, quando ele chegou, o agarrou, o beijou, o encostou à porta e fizeram amor de pé. Logo ali.

A avidez e sofriguidão com que se amaram era tamanha que lhe esclareceu todas as dúvidas.
Ele era ela. Ela era ele. Juntos guardavam o mundo inteiro dentro de si.

E nada mais importava.
Tornando-se com ele num só... ali se re-encontrou.

sexta-feira, setembro 09, 2005

Sonho


E, afinal, tudo não passara de um sonho.
Uma discussão nascera do nada.
Sem motivo algum, diziam-se um ao outro as palavras certas que sabiam ferir. Como agulhas. Aquelas que só os que verdadeiramente se amam sabem encontrar.
Discutiam ambos já sem saber o motivo. E não paravam... amando-se e gozando até aquela dor. Como se, o que sentiam, necessitasse de um contraponto para encontrar o equilíbrio.
No fundo, era a raiva, era o cansaço, eram os problemas da vida lá fora que tentavam, pé-ante-pé, entrar por aquele quarto adentro.
O universo que construíam juntos, porém, era enorme.
E, afinal, tudo não passara de um sonho.
Naquele momento em que despertou espantou a nuvem. E jurou a si mesma que, jamais, jamais, permitiria o sacrilégio de deixar que a pequenez de cada ser humano se infiltrasse num universo que era só deles. Aquele quarto.

Adormeceu, de novo.
Completa e em paz.

Necessidade

De se sentir novamente dentro dela.

De outra e outra vez se fundirem num só.

quarta-feira, setembro 07, 2005

Um aconchego


Sozinha de novo.
A vida lá fora exige. Não vivem de ar e vento - contas para pagar, a luz, a água, os carros, o apartamento, o quarto onde vive agora...
No quarto, porém, tudo se esquece. Enroscar-se nos lençóis que cheiram a ele... é um vício. As horas de separação assim se atenuam, o desejo vai sossegando.
A noite é feita de partilha e, essa, é só deles. De ambos.
E não paga impostos, sequer!

Madrugada

Acordou subitamente.

Mais uma vez o pesadelo que o vinha atormentando nas últimas noites: uma inexplicável separação.

Abriu os olhos a medo, já todavia atenuado pela fragrância que o envolvia: ela estava ali, ao seu lado. Como sempre.

Contemplou por instantes os suaves movimentos do seu peito sob o luar que teimava em invadir o quarto.

Pousou a sua mão sobre a cintura dela e adormeceu.

[imgem daqui]

terça-feira, setembro 06, 2005

Vestido

Vestia-se para ele.

O banho, o creme no corpo, o perfume, a maquilhagem, o vestido, os brincos, o anel sempre no dedo médio.

Cada gesto seu fazia parte de um ritual, que lhe dedicava cada manhã.

Cada gesto seu tinha lugar para que, no momento em que se vissem, ele o desfizesse.

Adorava construir-se para que ele, cada noite, com as suas mãos, a sua boca, o seu corpo, o seu desejo pudesse de novo tudo desfazer e, assim, re-construí-la.

domingo, setembro 04, 2005

Desilusão

Não que ele já o não esperasse: soubesse, até.

Era muito improvável que ela estivesse lá nessa tarde. Mas ainda assim procurou-a.

Para apenas encontrar o quarto vazio.

Vazio não: o doce odor de mulher impregnava cada uma das quatro paredes, toda e cada uma molécula de ar que circulava por ali tão livremente quanto o seu Amor.

Nem atravessou a soleira da porta - parecia-lhe quase uma heresia penetrar naquele recinto sagrado sem a metade que o completava.

Suspirou longamente, procurando dessa forma exalar a desilusão que não deixava de o atormentar e crescia dentro de si a cada instante que ali passava.

Triste, mais só que nunca, sentiu no coração como balas cada um dos estalidos que a fechadura dava ao trancar a porta.

Foi-se embora.

quinta-feira, setembro 01, 2005

Tentativas



Procura ocupar-se o mais possível.
Trabalha desde cedo até bem tarde e até já pôs em dia o correio que se encontrava em falta há meses.
Combinou almoços, jantares, cafés, cinema, aproveitando para rever amigos de longa data.

Hoje não.

Hoje apetece-lhe ficar no quarto.
Este que ainda respira o odor dele e que transpira, por cada poro, cada gesto, cada suspiro, cada afago que partilharam.

Estendida na cama, recorda os pequenos detalhes que a memória lhe permitiu guardar: o beijo ávido, a carícia dos seus dedos, o cheiro (meu deus.... o cheiro que é tão dele), o momento em que uniram os corpos e conquistaram, por momentos, o universo.

Calor.

Levanta-se em busca de água fresca. Abre o velho frigorífico que comprou em segunda mão e... não. Não é água que quer. Não é de água que precisa....

É de gelo.

Pedras de gelo que em gotas se derretam sobre si.
Pedras de gelo que a ajudem a suportar esta espera ingrata de ter dois corpos que são um único e que se encontram fisicamente separados.

terça-feira, agosto 30, 2005

Ânsia



Os braços dele, embora ausentes, ainda a aconchegavam
Também ela ansiava o retorno.

Dormia com ele, nele, todos os minutos do dia. Nem a distância física lhes roubava a proximidade que os dois sabiam ter.
Ansiava o retorno.

Ainda assim, ansiava o retorno.

O amor que sentia era demasiado grande para que o seu corpo pudesse ignorar aquela ausência.

segunda-feira, agosto 29, 2005

Despedida



Virou-se para trás com a porta já entreaberta.

Ela dormia repousada sobre a cama. Mesmo àquela distância, vislumbrava-lhe o doce sorriso.
As toalhas que usara para se limpar após o duche estavam desalinhadas no chão, no mesmo sítio para onde ele as atirara quando lhe descobriu o corpo ao sair da casa de banho, assim fazendo mais uma vez terno, louco e apaixonado amor.

Dormia.
O beijo que lhe deixou nos lábios seria o último contacto físico entre ambos por alguns dias.
Mas, no seu Mundo, continuavam juntos com se de um só se tratassem.

Angustiado pela separação forçada, mas já antecipando ansiosamente o reencontro, saíu do quarto, fechou a porta atrás de si e partiu.

Sobressalto



Adormecera de novo. Acordava agora num sobressalto ao sentir-lhe a ausência.
Uma angústia apertava-lhe o peito como que sofrendo fisicamente a dor que ele carregava em si.
Nada lhe dissera. Nada precisava ser dito. Ambos se sabiam compreender sem palavras.

Uma imensa necessidade de sentir a água a escorrer pelo corpo impôs-se. Talvez numa tentativa de se limpar daquele medo que a cama vazia lhe trouxe.
Despiu-se e, debaixo do chuveiro, com os olhos fechados, assim ficou, perdendo a noção do tempo.

Não o ouviu entrar. Apenas deu pela sua presença quando aquele corpo tão familiar a envolve, as mãos que ama a percorrem, a língua quente a procura.
Precisava daquele braço que, agora, a agarra pela cintura para lavar a alma de todos os temores.

Insónia



Acordou sobressaltado.
Eram profundos o silêncio e a escuridão em que se encontrava, tal como o pesadelo de onde acabara de emergir.

Aos poucos habituou a vista ao breu do quarto. Lentamente começou a notar, aqui e ali, minúsculos pontos de luz: a que teimava em passar através das cortinas, aquela que vinha do corredor e se esgueirava sob a porta do quarto...

Ali estava ela, deitada ao seu lado, adormecida com um discreto sorriso no rosto. Sentia a sua respiração, suave, pausada, doce... o seu ser, enfim.

Sorriu também, como só o poderia fazer quem está lado a lado com a felicidade.
Não se lembra quanto tempo esteve assim, a admirá-la, a beber da divina energia que emanava daquele corpo esbelto e sensual, com o qual se havia partilhado ainda há tão pouco tempo.

Lá fora, o Mundo dormia.
«Mas o nosso Mundo somos nós. Nada nem ninguém mais.», pensou.

domingo, agosto 28, 2005

Amanhecer



Acordou. Lá fora o dia começava a clarear.

Esperguiça-se, destapa-se, a ventoinha naquele movimento incessante no tecto. Olha em volta. O quarto em desalinho, as roupas espalhadas, atiradas ao acaso, o cheiro intenso ao amor que sentem um pelo outro que se entranha em cada objecto. Sente a paz que a habita naquele momento. O cansaço bom de cada músculo, o sorriso que não lhe sai do rosto.

Olha para ele. Ainda dorme. Detém-se uns bons dez minutos a observá-lo, tentando guardar todos os detalhes de mais um momento que na sua memória se tornará eterno. A forma como o lençol se enrodilha nas suas pernas chama-lhe a atenção.

Faz-lhe uma festa. Afaga-lhe o cabelo afastando aquela madeixa que sempre lhe cai para os olhos. Ele sorri, ainda dormindo.

Ela sabe que lhe povoa também os sonhos.

sábado, agosto 27, 2005

O encontro


Aquela espera tornava-se insuportável, quase dolorosa.
O coração não parava de bater e os minutos pareciam teimar em não passar.
Ele chegava hoje.
Finalmente, iam poder olhar-se olhos nos olhos e deixar que os corpos dissessem todas as palavras escritas nos mails ou sussurradas ao telefone, em vãs tentativas de enganar as saudades que tinham um do outro e que cresciam a cada dia.

Olhou em redor. O quarto onde vivia de há seis meses para cá era simpático. De madeira (nunca mais se iria esquecer daquele cheiro), a ventoinha no tecto para amainar o calor que todos os dias se fazia sentir naquela terra onde agora tinha de viver, os estores de madeira que se projectavam em sombra riscada, as cortinas leves que ondulavam ao sabor da mais pequena brisa, a secretária a um canto, o candeeiro, o portátil, o armário com a porta sempre emperrada, a mesa onde tomava o pequeno almoço, a máquina de café, o pequeno frigorífico. A cama. Lençóis brancos. Também ela parecia esperá-lo.

Aprendera a gostar daquele quarto e de todas as suas manhas. Tal como lhe sucedera com ele, há um ano atrás. Aprendera-o com todas as suas manhas e, hoje, não sabem existir um sem o outro.

Sente passos no corredor.
O coração acelera. Descompassadamente.
Batem à porta. É ele.
Fecha os olhos e, em silêncio, sente o momento de felicidade que ficou a pairar com aquele ruído.

Abre os olhos e diz-lhe: "Entra", preparando-se para, finalmente, se sentir completa.

O encontro


Pequenas gotas de suor escorriam-lhe pela testa enquanto subia quase às escuras pelas escadas em madeira que teimavam em gemer sob os seus pés.

Nunca tinha feito nada parecido.

Mas agora tudo iria mudar.

O encontro ia acontecer.

Caminhava agora lentamente ao longo do corredor pouco iluminado, tentando descortinar os números nas portas.

Recordou-se da voz rouca ao telefone :
«101».

Mais dois passos e ali estava ele à sua frente: quarto 101.

Inspirou profundamente, as mãos a tremer de ansiedade e antecipação.

Bateu nervosa e ligeiramente com os nós dos dedos na madeira da porta toscamente pintada.

Seguiu-se um longo silêncio.

Hesitou.

Preparado para se voltar e ir embora, lá de dentro soou uma voz feminina que de imediato o prendeu com correntes invisíveis :
«Entra».

Agora sem pensar duas vezes, abriu a porta e entrou.